UHE Igarapava
Acervo Arqueológico

O Programa de Salvamento Arqueológico da Usina Hidrelétrica de Igarapava foi realizado no biênio 1997-1998, dentro do Programa Executivo Ambiental desenvolvido durante a fase de construção do empreendimento.
Localizada entre os municípios de Conquista e Igarapava, na divisa dos Estados de Minas Gerais e São Paulo, a Usina Hidrelétrica de Igarapava foi a última hidrelétrica a ser construída no médio e baixo vale do rio Grande. Infelizmente a maior parte do curso desse rio já se encontrava represada para geração de energia elétrica e nenhuma pesquisa arqueológica fora realizada na época da execução dos empreendimentos, de maneira que não se tem idéia da quantidade de sítios arqueológicos que desapareceram sob as águas.
Conseqüentemente, as informações sobre a relação homem/meio ambiente e outros dados importantes sobre a cultura dos primeiros habitantes ribeirinhos dessa parte do rio Grande dependiam unicamente do trabalho de salvamento que foi  realizado nas ambiências da Usina Hidrelétrica de Igarapava.
Era esse o desafio. Mais que um preceito legal, as pesquisas arqueológicas de salvamento tinham por dever obter as primeiras informações sobre os povos pré-históricos cujas lembranças haviam desaparecido.
Os resultados provieram da interação de duas etapas de pesquisa, realizadas com quase dez anos de intervalo entre as prospecções exploratórias, ocorridas em 1988-1989, e os trabalhos de salvamento, realizados em 1997-1998.
A equipe de arqueólogos responsável pelos trabalhos de campo era formada por Paulo Alvarenga Junqueira, Ione Mendes Malta e Nívea Leite (esta última atuou somente no ano de 1988), auxiliados por Márcio Alonso Lima e Luiz Fernando Costa Miranda (1997). As prospecções foram realizadas seguindo metodologia desenvolvida pelos dois primeiros pesquisadores, então lotados no Setor de Arqueologia do Museu de História Natural da Universidade Federal de Minas Gerais (1976-1995).
O apoio logístico da etapa de salvamento ocorrida em 1997 foi fornecido pela Arkaios Consultoria S/C Ltda, de Belo Horizonte, em cujo laboratório foram realizados, de 1997 a 1998, a análise e identificação dos vestígios resgatados durante o salvamento.
A área do reservatório abrange as margens do médio rio Grande, na divisa dos Estados de Minas Gerais e São Paulo, numa extensão de 50 quilômetros, tendo como limite a leste a barragem da Usina Hidrelétrica de Jaguara, e a oeste a ponte de Delta, na via Anhangüera.  Atinge, na margem direita, terras dos municípios de Sacramento e Conquista, no Triângulo Mineiro, e na margem esquerda terras dos municípios de Rifaina e Igarapava no noroeste paulista .
O relevo da área foi esculpido sobre rochas sedimentares (arenitos) e vulcânicas (basaltos) e se caracteriza por grandes superfícies aplainadas recortadas por vales de vertentes longas e suaves. A altitude local varia entre 500 e 800 metros.
Na área do reservatório, o vale do rio Grande se apresentava amplo, com curvas abertas e corredeiras nos trechos onde afloravam rochas duras.
Predominam na região os latossolos roxos oriundos da decomposição do basalto e os latossolos vermelho escuro e vermelho-amarelo provenientes dos arenitos.
A cobertura vegetal do passado era de mata tropical e ciliar no vale e nas encostas, com cerrados e cerradões recobrindo as superfícies mais altas.
O clima tropical quente e úmido da região apresenta um índice pluviométrico variado, com média anual superior a 1.500 mm, sendo as chuvas concentradas nos meses de outubro a março. A temperatura média anual oscila entre 21ºC e 22ºC, com a máxima ultrapassando os 35ºC.
Por causa da ótima qualidade dos solos, a área é utilizada intensivamente para a agricultura com plantio de café, soja, milho, arroz e cana-de-açúcar, com o predomínio absoluto dessa última cultura nos vales e vertentes suaves.
A utilização do solo para atividades agrícolas nas faixas de terra correspondentes às matas galerias não é recente. Muito antes da chegada do homem branco, os índios já sabiam e utilizavam essas terras para as mesmas finalidades. Mais férteis que o cerrado situado nas chapadas, elas propiciavam melhores colheitas. Desde o início da ocupação branca a superposição de atividades não foi, portanto, coincidência.
Como decorrência, vestígios arqueológicos importantes foram destruídos. As estruturas que ainda poderiam ser observadas, tais como a disposição das casas na aldeia, seu tamanho, repartição espacial interna, etc., foram apagados e dispersos, tornando indefinidos seus limites.
A ação destruidora dos agentes naturais como clima úmido, solos ácidos, bactérias e cupins completava o quadro. A maior parte da produção cultural materializada em objetos desapareceu, pois eles eram feitos de materiais orgânicos frágeis como osso, madeira, fibra, pele, pena, frutos e sementes. Dessa maneira, a cerâmica acabou se transformando, com os artefatos de pedra, nos únicos testemunhos culturais remanescentes desses povos.
É se baseando apenas neles que os arqueólogos são obrigados a promover seus estudos. A alta fragmentação da cerâmica, dispersa, fora de contexto tanto espacial quanto temporal, torna deficiente e árdua essa tarefa.
Os trabalhos de campo, tanto na fase de Inventário quanto na de Salvamento, permitiram identificar 25 sítios arqueológicos nas ambiências da Usina Hidrelétrica de Igarapava. Desses, 13 são aldeamentos, dez, acampamentos e dois, oficinas líticas.
Os vestígios arqueológicos coletados indicam que as margens do rio Grande foram ocupadas por duas populações ceramistas distintas: TRADIÇÃO ARATU e TRADIÇÃO TUPIGUARANI.
A TRADIÇÃO ARATU, cuja presença foi mais acentuada, possuía grandes aldeias com centenas de habitantes. A maioria se localizava na margem direita, hoje pertencente ao Estado de Minas Gerais, porque o trecho paulista apresenta áreas de baixa declividade ocupadas por brejos, portanto insalubres para os indígenas.

As 12 aldeias (SÍTIOS DE HABITAÇÃO) eram sítios onde foram encontrados uma grande quantidade de vestígios cerâmicos dispersos em áreas que variavam entre 25.000 e 240.000 m². Esses aldeamentos estavam assentados nas porções meso-inferiores de vertentes de pouca declividade, sempre próximas a pequenos cursos d’água. 
As várzeas férteis foram usadas para plantio de lavouras de milho e tubérculos (batata-doce e inhame). A ausência de vasilhas cerâmicas próprias para o preparo de farinha de mandioca (pratos) pode indicar que os povos da TRADIÇÃO ARATU não cultivavam essa raiz, embora uma espécie nativa remanescente tenha sido coletada junto ao sítio Santa Cruz. Quando a fertilidade do terreno se esgotava, a aldeia mudava para novas terras. Por isso, por maior que as aldeias fossem, elas parecem não ter ocupado um mesmo espaço por longo tempo.
Fragmentos de artefatos líticos polidos, do tipo machado, encontrados associados à cerâmica, indicam a derrubada de árvores para limpeza de áreas para o assentamento das aldeias, preparo da roça ou para obtenção de madeira utilizada na construção das estruturas das casas.
Os potes cerâmicos eram confeccionados com argilas provenientes de jazidas locais, como demonstraram artefatos líticos polidos, do tipo cavadeira, encontrados em dois barreiros da região.
O conjunto dos vasilhames cerâmicos é composto por vasos não decorados, de formatos que vão de semi-esféricos a globulares. Suas dimensões variavam entre 10 e 40 centímetros, podendo apresentar a boca aberta ou constrita.
O acabamento mais comum dado à superfície era o banho de argila, ou barreado. Existem também vasilhas com superfícies simples e alisadas.  As formas e acabamentos indicam usos para armazenagem, cozimento ou  serviços. Vasilhas de uso cerimonial geminadas e em forma de cabaça mostram uma fácie da TRADIÇÃO ARATU desenvolvida na região.
As urnas piriformes parecem não ter sido muito freqüentes e os poucos fragmentos encontrados mostram que não eram muito grandes nem muito espessas. 
Poucas rodelas de fusos, encontradas em três sítios, demonstram o trabalho de tecelagem, mas por causa de sua pouca representatividade e da falta de datações não se pode afirmar se indicariam apenas uma aquisição cultural tardia.
Os traços culturais descritos acima indicam que a principal população indígena daquela região pertencia à TRADIÇÃO ARATU, com características muito parecidas com as encontradas na região da Usina Hidrelétrica Nova Ponte, Minas Gerais, e em Goiás (fase Mossâmedes). Isso pode significar que povos daquela cultura colonizaram uma vasta área do Triângulo Mineiro e do noroeste paulista durante um milênio ou mais.
Pelo menos nove áreas apresentaram vestígios de ocupação temporária (ACAMPAMENTOS). São sítios pouco extensos onde vestígios cerâmicos e líticos foram encontrados em pequena quantidade, deixa-dos por umas poucas pessoas que estariam executando atividades como: caça, coleta de vegetais, obtenção de argila para a manufatura de cerâmica, confecção de artefatos líticos em alguma oficina próxima, preparação da roça para o plantio ou a colheita da lavoura.
O outro grupo ceramista encontrado na área pertence à TRADIÇÃO TUPIGUARANI. A sua presença, comparada a da TRADIÇÃO ARATU, é insignificante, correspondendo somente a dois assentamentos: um aldeamento e um acampamento, ambos localizados na margem paulista do rio Grande. Mesmo no aldeamento (Canabrava), os vestígios se resumiram a uma das concentrações cerâmicas, não aparecendo no restante do sítio.
Entre os tipos cerâmicos encontrados havia fragmentos pintados, com engobo branco, faixas vermelhas e linhas pretas. Na decoração plástica predominava o corrugado, seguido do ungulado e por último do ponteado.
A amostragem reduzida e a alta fragmentação dos cacos cerâmicos não permitiu que as formas das vasilhas fossem reconstituídas, mas é comum nos utensílios desse grupo a presença de trempes e vasilhas bastante abertas, próprias para assar beiju e torrar farinha de mandioca. Esse tubérculo é o alimento básico de subsistência desse grupo belicoso e afeito à canoagem, meio de locomoção que os auxiliou a marcar presença em praticamente todos os rios navegáveis do Brasil.
A desvantagem numérica dos TUPIGUARANI na região pode ser explicada pela forte resistência encontrada ao chegarem a esse território já ocupado por uma outra população (TRADIÇÃO  ARATU), de origem macro-gê, tão aguerrida quanto eles.
Duas oficinas de fabricação de artefatos de pedra (OFICINAS LÍTICAS) foram localizadas na margem esquerda do rio Grande.
Nelas foram encontrados alguns resíduos de lascamento, instrumentos para trabalhar madeira, osso e pele, tais como plainas (lesmas) e raspadores feitos em arenito. Uma raríssima ponta de projétil bifacial, apesar de fragmentada, foi encontrada em um desses sítios. Exceto pela ponta, os artefatos são muito parecidos tipologicamente com os dos caçadores e coletores da Fase Paranaíba, do vizinho Estado de Goiás, datada entre 10.750 e 9.000 anos atrás.
Embora nos sítios cerâmicos da TRADIÇÃO ARATU, mais recentes (1.500 anos atrás), não tenham sido encontrados instrumentos como esses, a possibilidade das oficinas pertencerem a eles não pode ser descartada. Diversas lascas típicas de preparação de artefatos como lesmas, raspadores e facas foram achadas associadas à cerâmica.

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